Museu do Imigrante divulga pesquisa referente à 4ª Seçao do Rio das Antas

Dando continuidade às publicações sobre o projeto “Laços Patrimoniais – Construindo um inventário colaborativo para Bento Gonçalves”, a pesquisa realizada pela equipe do Museu do Imigrante foca no Eixo 4, que vem a ser a 4ª Seção do Rio das Antas. Neste recorte, tem-se como objeto de estudo as comunidades de São Luiz e Jaboticaba.
Já foram divulgadas as pesquisas sobre o Eixo 1 (Bairros Cidade Alta, São Roque e Centro), Eixo 2 (São Valentim e Addolorata) e o Eixo 3 (Passo das Antas – Veríssimo de Mattos, Km2 e Passo Velho).

Eixo 4 – 4ª Seção do Rio das Antas – São Luiz e Jaboticaba

As localidades de São Luiz e Jaboticaba situam-se na 4ª Seção do Rio das Antas, cuja formação geográfica é contornada pelo Rio das Antas, pontuado por um paredão de pedra. A divisão dos lotes foi feita dividindo o morro entre Leste e Oeste, os quais foram distribuídos as famílias majoritariamente de origem italiana, com alguns registros de sobrenomes brasileiros. Embora ocupados a partir de 1883 em planejamento ortogonal, a construção de edificações segue as vias que contornam o morro, respeitando as condições geográficas, gerando dois conjuntos edificados.

O núcleo ferroviário de São Luiz, com vista panorâmica da região e da Ponte Ernesto Dornelles, ocupa o alto do morro de forma transversal aos lotes coloniais, sendo formada por casas de colonos, igreja, escola, vila ferroviária, reservatório de água, estação, viadutos e túneis. Já a localidade de Jaboticaba, ao pé do morro, aproximadamente no lote 43, é formada por três conjuntos de casas de trabalhadores ferroviários, escola, estação, reservatórios, túnel em Y e ponte ferroviária sobre o Rio das Antas (divisa com Veranópolis).

O lugar tem como elementos naturais simbólicos a presença do Rio das Antas, a topografia acidentada e a vegetação nativa. Como elementos artificiais, destacam-se a ferrovia, que saindo de São Luiz, abraça o morro em forma de laço, bifurcando-se no túnel em Y, seguindo para Jaboticaba, assim como os túneis, viadutos e construções relacionadas às vilas ferroviárias, as quais são majoritariamente em linguagem Art déco e Protomoderna em São Luiz e de caráter Modernista em Jaboticaba. Ambas foram construídas a partir de projeto padrão em linguagem déco.

O espírito do lugar é variável a partir da experiência de cada grupo social com a localidade, variando entre a religiosidade e vida comunitária relacionada à igreja, a relação com o trem desativado e com a paisagem do Vale das Antas, por parte dos visitantes, ou com as memórias e sensação nostálgica das pessoas que experienciaram o processo de construção. Reafirma-se a avaliação (Greselle – 2020), de que a identidade é mutável, determinada pela relação do sujeito com o espaço.

Já em Jaboticaba, a sensação de nostalgia do lugar é gerada pelos vagões em ruínas abandonados no pátio de manobras, o que é conhecido como cemitério de vagões. As casas do entorno da estação, de linguagem Modernista e estrutura maior que as do período de construção do ramal, levam a reflexão sobre a sua funcionalidade para famílias maiores, possivelmente destinadas ao período de operação da linha. Atualmente, o Tronco Principal Sul que passa por Jaboticaba encontra-se ativo para transporte de cargas por trens a diesel, porém não há paradas no local, nem funcionários residentes, sendo que as casas estão ocupadas por pessoas não relacionadas com a operação.

Outro ponto de reflexão que necessita ser aprofundado é a diferença temporal das linguagens construtivas entre o núcleo de São Luiz (e com esse os demais núcleos construídos entre as décadas de 1940 e 1950) e o núcleo de Jaboticaba (construído provavelmente na década de 1960). Os primeiros, finalizados até junho de 1950, assim como todas as estações férreas padronizadas do itinerário, possuem linguagem Protomoderna com elementos Art déco, como formas simples, marquises arredondadas e ornamentos geométricos. Já as construções de Jaboticaba – em especial as vilas residenciais – bem como a denominação ‘esplanada da estação de junção’, seguem características que remetem à arquitetura Modernista, como emolduramento das janelas e uso de cobogós.

Segundo Costa et al (2011, linguagem), “a década de 1940 é marcada pela arquitetura art déco, enquanto a década de 1950, pela ocorrência simultânea da arquitetura art déco e modernista e a década de 60 pela arquitetura modernista”. A linguagem desses períodos iniciou com a popularização do Art déco durante o governo de Getúlio Vargas, que “para traduzir a modernidade do seu governo, adotou esse estilo em vários edifícios públicos” (COSTA et al, 2011, contexto). Já o início da arquitetura Modernista em Bento Gonçalves é marcado pelo projeto da União Bento Gonçalvense de Estudantes (atual Colégio Bento Gonçalves), assinado pelo Arquiteto Oscar Niemeyer Filho, em 1955 e as influências arquitetônicas e tecnológicas da construção de Brasília no governo de Juscelino Kubitschek.
Não havendo data oficial que registre quando foram construídas, pondera-se que as edificações ferroviárias tenham sido projetadas seguindo as características arquitetônicas incentivadas pelo governo de sua época. Por sua vez, o tempo decorrido entre as construções desses conjuntos, materializado através da linguagem arquitetônica e tecnologia construtiva, leva à reflexão sobre as dificuldades enfrentadas para a construção do ramal, especialmente no laço formado entre os núcleos analisados.

De todo esse conjunto, apenas a Igreja de São Luiz está no inventário atual, sendo que os conjuntos edificados estão identificados no Plano Diretor como APPACs – Áreas de Preservação à Paisagem Cultural, caracterizadas como Áreas Especiais de Interesse Histórico e Social.

Tendo em vista a análise paisagística e arquitetônica do local, bem como tendo como referência o estudo de Greselle (2020), são indicados para inclusão no inventário os conjuntos ferroviários formados por residências, estações, túneis, viadutos e reservatórios, para os quais, juntamente com a linha, igreja e vistas, é recomendável a chancela paisagística e o incentivo à implantação de espaços e passeios memoriais. Além disso, também é recomendável a realização de projetos de revitalização com atuação de responsáveis pela habitação e assistência social em parceria com a Secretaria de Cultura e Museu do Imigrante, de forma a possibilitar a regularização das ocupações de interesse social e o fortalecimento de vínculo da população com o lugar.

A equipe do projeto é formada por Deise Formolo, Cristiane Bertoco, Ivani Pelicer, Angela Maria Marini, Sabrina De Lima Greselle e Margit Arnold.

O projeto “Laços Patrimoniais: construindo um inventário colaborativo para Bento Gonçalves” recebeu recursos de R$ 50 mil da Secretaria de Estado da Cultura, sendo selecionado no âmbito do Edital SEDAC nº 01/2019 “FAC Educação Patrimonial”.

Laços Patrimoniais no Facebook: https://www.facebook.com/La%C3%A7os-Patrimoniais-107751601027534
Email do projeto: laç[email protected]
Para mais informações, contate por meio do telefone do Museu do Imigrante: (54) 3451.1773

 

Fonte: Assessoria de Comunicação Social da Prefeitura de Bento Gonçalves
Foto: Wagner Meneguzzi / Museu do Imigrante / Divulgação