Morte por covid após vacina: o que explica internações e óbitos mesmo com imunização completa?

Relatos nas redes sociais contam histórias de pessoas que se infectaram por covid-19 ou morreram de complicações da doença mesmo após tomarem a vacina.

Casos assim, ainda que amplamente noticiados pela imprensa, devem ser tratados como um “evento raro” e não significa que as vacinas não funcionam, principalmente se o regime de imunização estiver completo no intervalo correto.

“As pessoas têm muita dificuldade de entender qual é a função de uma vacina”, diz Natalia Pasternak, bióloga e fundadora do Instituto Questão de Ciência. “Elas acham que a vacina é mágica. Ou seja, tomou a vacina, está protegido; não tomou, vai ficar doente. Não é assim que vacinas funcionam.”

Segundo Pasternak, as vacinas “reduzem a chance de ficarmos doentes, de hospitalização e de morrermos”.

“Casos individuais não servem para a gente dizer se uma vacina é boa ou não. Precisamos olhar como essa vacina se comporta em uma população. A vacina reduziu a incidência da doença? Então, ela funciona”, resume.

Foi isso que os testes de eficácia das principais vacinas disponíveis no Brasil e no mundo mostraram. A taxa de eficácia geral da CoronaVac, por exemplo, é de 50,38%. E a proteção é de 78% para casos leves, segundo informou o Instituto Butantan em janeiro deste ano.

Isso significa que a vacina reduziu em 50,38% o número de casos sintomáticos entre os voluntários da pesquisa e em 78% o número de infecções leves.

Durante os testes, nenhum participante vacinado morreu ou foi hospitalizado por covid-19, o que fez o governo de São Paulo divulgar na ocasião uma taxa de 100% de eficácia para casos graves.

Mas o próprio Butantan esclareceu que essa informação não era estatisticamente significativa. Isso porque não se sabe se foi a vacina que evitou os casos graves durante o estudo ou se eles não teriam ocorrido de qualquer forma, já que o número de casos graves no grupo placebo não foi significativo.

“Em outras palavras, se você tomar a CoronaVac, você reduz pela metade ou em 50% a sua chance de ficar doente comparado com alguém que não se vacinou. Já a sua chance de desenvolver doença grave é reduzida em praticamente cinco vezes comparado com alguém que não se vacinou. Nenhuma vacina oferece proteção de 100%”, explica Pasternak.

No Chile, onde a CoronaVac é a mais aplicada, testes recentes de larga escala mostraram resultados até mais otimistas.

Segundo o Ministério da Saúde chileno, um estudo com 10,5 milhões de pessoas mostrou que o imunizante tem 80% de efetividade para prevenir mortes, 14 dias depois da segunda dose. Os resultados mostram que a vacina chinesa foi 89% efetiva em em evitar a internação de pacientes críticos em UTIs, em 85% para prevenir as hospitalizações e 67% para impedir a infecção sintomática da doença.

‘A vacina é como um goleiro’

Assim como outros epidemiologistas, Pasternak recorre à analogia do goleiro. “Uma boa vacina é como se fosse um bom goleiro. E como sabemos que o goleiro é bom? Vamos olhar o histórico dele. A frequência com a qual ele faz defesas. Se ele defende com frequência, ele é um bom goleiro. Isso não quer dizer que ele é invicto, que ele nunca vai deixar de tomar gol. Mas, mesmo se tomar gol, ele não deixa de ser um bom goleiro. Precisamos olhar o histórico dele”, diz.

“Mas se o time dele for uma droga, se a defesa do time dele for uma droga, ele vai tomar mais gol, porque vai ter muito mais bolas indo para o gol, então a probabilidade de ele errar aumenta”, acrescenta.

Mas o que faz essa probabilidade variar “Se a defesa do time dele não usar máscara, fizer aglomeração, haverá muito mais vírus circulando, ou seja, mais bolas para o gol, então a probabilidade de tomar gol é maior. A mesma coisa acontece com uma vacina”, diz Pasternak.

“A vacina diminui o seu risco de ficar doente, agora, se você estiver numa área onde a defesa do time é ruim, onde o vírus está circulando muito, a chance de você ficar doente aumenta.”

E, claro, se a pessoa que ficar doente já tiver comorbidades (doenças associadas), como obesidade, diabetes, hipertensão ou asma, por exemplo, sua chance de desenvolver o quadro mais grave da doença é maior — mesmo já tendo sido vacinada.

‘Nenhuma vacina é 100% eficaz’

Conclusão: vacinas funcionam, mas não são infalíveis. Mas, apesar de essa probabilidade ser pequena, quanto mais a doença estiver circulando, maior é a chance de o imunizante falhar.

“As vacinas aprovadas para covid-19 são eficazes em proteger contra a doença, mas nenhuma vacina é 100% eficaz. O risco de infecção por em pessoas totalmente vacinadas não é completamente eliminado enquanto houver transmissão contínua do vírus na comunidade”, reforça Denise Garrett, vice-presidente do Sabin Vaccine Institute (Washington).

“Vamos ter uma pequena porcentagem de pessoas totalmente vacinadas que ainda ficarão doentes, serão hospitalizadas ou morrerão. Esse número vai depender da eficácia da vacina, da taxa de circulação do vírus, e da prevalência de novas variantes. Por isso, a adesão às medidas de prevenção, como uso de máscaras e distanciamento social, continua a ser importante no contexto da implementação da vacina.”

“Temos que enfatizar que existem evidências que pessoas totalmente vacinadas têm menos probabilidade de ter infecção assintomática e, potencialmente, menos probabilidade de transmitir o Sars-CoV-2 a outras pessoas”, conclui Garret, que trabalhou por mais de 20 anos no Centro de Controle de Doenças (CDC) do Departamento de Saúde dos Estados Unidos (equivalente ao Ministério da Saúde no Brasil).

Tais evidências foram observadas em países onde a vacinação está mais avançada, como Israel. Sendo assim, destaca Garrett, “a vacina é uma ferramenta essencial para controlar a pandemia. O que as pessoas precisam entender é que o fato de terem ocorrido casos e até mesmo algumas hospitalizações e mortes (muito mais raras) entre vacinados não significa que a vacina não funciona. A vacina funciona e muito!”

Pasternak lembra ainda ser primordial tomar as duas doses — é assim que funciona o regime de imunização de quase todas as vacinas aprovadas até agora. Os estudos de eficácia das disponíveis no Brasil para combater a covid-19 mostraram a imunização completa somente 14 dias depois da segunda dose (ou da dose única, no caso da Janssen).

O Ministério da Saúde tem alertado que muita gente que tomou a primeira dose da vacina contra a covid-19 no Brasil não tem voltado ao posto na data correta para completar o esquema vacinal com a segunda dose. “Temos visto no Brasil números enormes de inadimplência da segunda dose. E isso não pode acontecer”, diz Pasternak.

Fonte: BBC
Foto: Getty Images / Reprodução