Saiba mais sobre Dom José Gislon, o novo bispo da Diocese de Caxias

Será em julho e no Santuário Diocesano de Nossa Senhora de Caravaggio, de Farroupilha, o primeiro encontro entre o novo bispo nomeado para responder pela Diocese de Caxias do Sul, Dom José Gislon, e os padres que atuam nas comunidades ligadas à diocese. A informação de que o atual bispo da Diocese de Erexim será o novo bispo da Diocese serrana foi divulgada na última quarta-feira, 26 de junho. O evento de apresentação aos padres será em 15 de julho em Caravaggio.

Dom José Gislon é catarinense, tem 62 anos e foi nomeado bispo pelo Papa Bento XVI em junho de 2012. Entre tantas impressões que o religioso já sustenta do povo da Serra Gaúcha, ele encontra uma familiaridade: a formação da cidade de Erechim, onde atua há sete anos, e de municípios serranos têm, em comum, a forte influência da colonização italiana. “Em Erechim, a comunidade é 67% de influência italiana, e há muitas famílias que chegaram da Serra para povoar a cidade. Então são pessoas com muita proximidade com a fé, que já carregam a devoção, mas que também sofreram as mudanças da sociedade em relação com a fé. Penso que dentro do coração de cada pessoa há uma luz divina que está sempre acesa. E, como bispo ou sacerdote, precisamos colocar combustível para abastecer essa fé do povo de Deus”, afirma.

Dom José Gislon já peregrinou ao Santuário de Caravaggio de Farroupilha quando foi ordenado padre, em 1988, se identifica como um religioso cujo compromisso está fortemente ligado à questões que envolvem minorias, como idosos e crianças. Acredita que seu trabalho na Serra precisa ser reflexo do que o Papa Francisco ensina: uma igreja em saída, que se aproxime da comunidade e evangelize em cada gesto.

Confira uma entrevista com o novo líder da Diocese de Caxias do Sul, Dom José Gislon. Ele substituirá o atual bispo italiano Dom Alessandro Ruffinoni, que precisou enviar carta de renúncia ao completar 75 anos, idade estabelecida no Código de Direito Canônico para que o bispo apresente sua renúncia ao Papa. A comunidade agradece ao empenho, dedicação e trabalho que Dom Alessandro entregou em seu bispado marcado pela humanidade e compaixão.

Santuário: A questão mariana já está retratada em seu brasão de bispo – em azul, aparece a letra “M” (abreviação de Maria), simbolizando a grande devoção à Virgem Maria da Igreja, da Diocese e da Ordem Franciscana, a defensora da Imaculada Conceição. Em uma sociedade com tanta indiferença e com questões sociais, muitas vezes, se tornando secundárias, como Maria, mãe de Jesus, pode nos ajudar?

Dom José Gislon: Maria foi a primeira a aceitar o projeto de Deus porque acolheu a palavra Dele em seu ventre. Ela transformou a palavra em carne. Foi mãe diante da dor, diante da cruz e do silêncio, sempre forte com esse olhar de proximidade. Penso que na caminhada de todos, temos o sentimento de que quando a mãe está viva, a gente consegue congregar a família na casa materna. Quando falta a mãe, há uma natural dispersão da família. Na vida da igreja, a figura materna é tão importante que os santuários mais visitados em todo o mundo são os marianos. Porque o povo de Deus peregrina para a casa da mãe e sente, em sua fragilidade, a necessidade da ternura materna. Em momentos de aflição, a gente busca o colo da mãe. Venho de uma Diocese que há um santuário que se tornou um dos principais pontos de encontro da comunidade, o que mostra que sempre haverá espaço para devoção mariana. A sede do povo de Deus de não se sentir só, de ser amado, é saciada na presença materna da figura de Maria. Ela é um consolo muito grande.

Santuário: Além deste consolo e deste carinho de Nossa Senhora, no caso da história de Caravaggio, há também uma lição sobre força e compaixão feminina, já que a aparição de Nossa Senhora para a camponesa Joaneta diz respeito à violência feminina. E este é um drama que a humanidade tem enfrentado também.

Dom José: Vivemos um momento histórico em que a violência contra a mulher deixa de ser velada, escondida, sofrida no silêncio, para ser denunciada. Temos a maior violência contra a mulher que é o feminicídio, de uma crueldade sem precedentes. Isto porque quando a gente não consegue respeitar a mãe, a mulher, dentro de casa, vivemos em uma sociedade doente. Se não conseguimos respeitar a presença da mulher, nós temos um longo caminho a percorrer. Faz parte da igreja a evangelização contínua, o resgate da dignidade e o apoio às instituições que protegem. A vida da mulher é a origem da vida. Se olharmos as comunidades, temos como maiores protagonistas justamente elas. É preciso criar esta nova mentalidade em casa, na escola, na igreja e dar um grande passo pelo fim da violência. A violência feminina é reflexo de todo contexto de violência que segue nas camadas mais e menos abastadas da sociedade.

Santuário: Com quais temas o senhor mais se identifica, ou acredita que a igreja pode ter uma abordagem ainda mais eficaz?

Dom José Gislon: A minha personalidade diz que temos que estar próximos da realidade do povo de Deus. Como Franciscano Capuchinho, preciso dialogar com o mundo empresarial, político, com as forças de segurança, com todos: onde há gente, eu me identifico. Tanto com a questão do migrante, onde vamos ao encontro das novas realidades desafiadoras, quanto com o mundo dos idosos, uma realidade que cresce: filhos que não estão perto, pais que seguem vivendo muitas vezes sem dignidade e que a sociedade as esquece. Se alguém adoece ou envelhece, a igreja precisa ir ao encontro dele. Jamais esquecê-lo. O mundo da criança também me toca muito porque ninguém escolhe pai ou mãe. Ou você é amado, ou você é abandonado. E você não escolhe qual dos dois enfrentará. E veja: crianças e idosos não têm possibilidade de se defender. Eu penso que Erechim e Caxias do Sul são formadas por povos sensíveis a questões assim. Caxias é generosa, de coração aberto e prestativa, disposta à caridade. Não tenho receio de pedir ajuda e envolver todos em uma rede de solidariedade. Faz parte da vida e da caminhada da igreja. Não podemos nos fechar em isolamento porque estamos matando os princípios do Evangelho que Jesus nos ensinou: ele nunca deixou de ouvir. O bispo não tem solução, mas precisa ouvir as pessoas que têm. Quero ter a menor barreira possível entre mim e o povo.

Santuário: O Santuário de Nossa Senhora de Caravaggio recebe milhares de pessoas por ano, e é um dos pontos mais visitados da Serra. A devoção pela Virgem de Caravaggio é muito grande. O senhor tem alguma relação com o Santuário?

Dom José: Ter um Santuário como esse na Diocese é uma graça de Deus. É algo inusitado a forma como Deus nos conduz, já que logo que fui ordenado padre, fiz um curso em Viamão (RS) e fomos peregrinar a Caravaggio. Fui à missa das 10h e foi celebrada pelo bispo, Dom Benedito Zorzi. Me chamou a atenção que ele fez uma bênção especial às crianças, e isso me marcou muito, a delicadeza daquela cerimônia. Estive em outros momentos no Santuário depois disso, e já planejo ir caminhando como os peregrinos fazem. Na verdade, todos somos peregrinos e estamos de passagem. Quando vamos em peregrinação, peregrinamos para dentro da gente, para nosso eu que nos coloca junto de Jesus. O Santuário é um lugar de encontro e reencontro. Conosco mesmo e com nossa brevidade. Jamais deixem de tirar um tempo para a escuta de Deus, peregrinos. A caminhada da fé é feita com a palavra de Deus, com a devoção mariana e com as provações que passamos. Não estamos sozinhos. A ternura materna está presente na nossa vida, e a força do Pai cuida de nós. Amém.