Projeto Laços Patrimoniais divulga pesquisa sobre as comunidades Addolorata e São Valentim, em Bento

O reconhecimento dos bem culturais norteia o projeto que a equipe do Museu do Imigrante vem desenvolvendo desde o ano passado. “Laços Patrimoniais: construindo um colaborativo para Bento Gonçalves” tem esse propósito de identificar e atualizar o último inventário que foi produzido em 1994. Tendo já abordado o Eixo 1 que compreende os bairros Centro, Cidade Alta e São Roque, o Eixo 2 traz informações sobre a região de São Valentim e Addolorata.

Os conjuntos São Valentim e Addolorata são localizados ao longo da linha Estrada Geral, entre os lotes 38 e 63 a leste e entre 64 e 89 a oeste. Nas edificações, destacam-se a Capela da Addolorata, onde está a sede distrital, e a Capela de São Valentim, próximo de onde esteve uma estação férrea. Na metade do século XX, foram instalados postos locais de vinificação de cooperativas, que também tiveram sua importância na polarização dessas localidades, cujo maior movimento seria nas épocas de safra.

A tríade das vias e transportes nessas localidades ocupa um importante espaço na conformação urbana e na identidade de seu território. Embora atualmente encontra-se adormecida pela perda de parte das suas referências imateriais e pelo fato da ferrovia no local estar desativada, a Estrada Geral, a Estrada Buarque de Macedo e a Ferrovia do Vinho foram essenciais para a distribuição dos espaços edificados. Há relatos que a primeira Capela de São Valentim, que era localizada na Estrada Geral, ficava na estrada paralela, a leste da atual estrada principal, próxima ao cemitério, e que a cruz da esmola para os defuntos foi construída quando da abertura da Estrada Buarque de Macedo, para demarcar o seu acesso.

A hipótese de a Estrada Geral ser a via onde está o cemitério é reforçada pelo fato de construções do período primitivo da imigração, como os conjuntos Postal e Federizzi, estarem localizados nessa via. Já as construções dos períodos de apogeu e tardio encontram-se localizadas junto à estrada principal, exemplificada pela Casa De Costa/ Todeschini, construída sobre o lote 72 da Linha Estrada Geral Oeste, mas que possui acesso ao leste da Estrada Buarque de Macedo. Já os conjuntos das famílias Roman e Casagrande fazem parte do entorno da Capela atual.

Segundo relata as historiadoras Bernadete Schiavo Caprara e Terciane Ângela Luchese, em “Da Colônia Dona Isabel ao município de Bento Gonçalves – 1875-1930”, também se destaca a casa de negócio da família Zapatero, próximo à Capela de São Valentim onde havia um armazém de tecidos, secos e molhados, que também trocava produtos dos colonos, que eram transportados e vendidos na cidade. Nesse local, até os anos noventa, também se localizava a central telefônica da localidade.

Outras referências relacionadas à São Valentim são a localização, ao lado da capela, da casa do ex-pracinha Francisco Pértile (Tcheco), que lutou na Segunda Guerra Mundial, além dos costumes das famílias fazerem o brodo para alimentar os enlutados durante os velórios ou se reunirem no salão comunitário para fazer os capelettis das festas.

“Quando se olha para uma casa da imigração italiana é necessário compreender que ela não representa apenas uma residência, mas um conjunto de edificações e atividades que formam a estrutura fabril artesanal, comercial e religiosa de uma família. Por exemplo, a casa de negócio da família Salton, na comunidade Addolorata, é um dos pontos de referência comercial de Tuiuty, onde era realizada a troca de mercadorias conhecida como escambo”, salienta a museóloga Deise Formolo.

A análise do conjunto contou com a contribuição da acadêmica de Arquitetura e Urbanismo Laura Gaddo Dal Mas, que realizou estágio na Universidade de Caxias do Sul, orientada pela Professora Margit Arnold Fensterseifer.

Plano Diretor 

O Plano Diretor reconhece o conjunto de São Valentim como Área de Proteção ao Patrimônio Histórico Cultural e Turístico (APPAC urbana), onde também são identificadas construções com mais de 50 anos a serem incluídas no inventário. A maioria das construções antigas do conjunto encontram-se reconhecidas pelo instrumento, inclusive com histórico e identificação dos seus proprietários nos anos noventa. Identificam-se quatro construções a serem incluídas, por seu valor de conjunto e de acervo da arquitetura de imigração italiana, sendo duas casas de madeira do período tardio da arquitetura imigrantista e uma cruz de ofertório para os defuntos, além do lugar referencial onde se localizava o antigo posto de vinificação, hoje em ruínas, o qual também possui valor ferroviário. Próximo a este, identifica-se a antiga estação férrea de São Valentim, construída pelo 1º Batalhão Ferroviário, hoje ocupada por uma moradia. Outro posto de vinificação deste tipo encontra-se em Tuiuty, em frente ao cemitério, onde também há uma bodega.

Da mesma forma, junto ao conjunto da Capela Addolorata (Nossa Senhora das Dores), sede distrital, a maioria das construções antigas são inventariadas e o Plano Diretor reconhece o conjunto como APPAC urbana. É necessário, entretanto, a atualização da visão patrimonial como conjuntos históricos, visto que são identificáveis vários conjuntos de origem rural que formam a paisagem. Os principais elementos paisagísticos são as estradas, as edificações antigas e os cultivos, principalmente, de parreirais familiares. Também há uma grande relação entre o uso industrial dos porões familiares, com a evolução fabril de indústrias vinícolas de grande ou pequeno porte, como a Salton e a Cainelli.

Identifica-se a importância de registro dos lugares de referência para o patrimônio imaterial, tais como espaços utilizados para jogos tradicionais, celebrações e paisagens formadas pelos saberes e fazeres do vinho colonial, típico do distrito. Destacam-se a praça da Addolorata, onde eram realizadas as principais atividades da Festa da Colheita (também havia atividades na Capela de São Valentim) e os lugares de referência das antigas bodegas, como a da família Dall’Oglio, das capelas e junto aos times de futebol. Considerando a transversalidade entre as tipologias de patrimônio tangível e intangível, o instrumento de preservação mais indicado é a chancela paisagística.

A equipe do projeto é formada por Deise Formolo, Cristiane Bertoco, Ivani Pelicer, Angela Maria Marini, Sabrina De Lima Greselle e Margit Arnold.

O projeto “Laços Patrimoniais: construindo um inventário colaborativo para Bento Gonçalves” recebeu recursos de R$ 50 mil da Secretaria de Estado da Cultura, sendo selecionado no âmbito do Edital SEDAC nº 01/2019 “FAC Educação Patrimonial”

Laços Patrimoniais no Facebook: https://www.facebook.com/La%C3%A7os-Patrimoniais-107751601027534

Email do projeto: laç[email protected]

Para mais informações pelo fone (54) 3771.4230.

Fonte: Assessoria de Comunicação Social da Prefeitura de Bento Gonçalves
Foto: Wagner Meneguzzi / Museu do Imigrante / Divulgação